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Projeto que mudou realidade de assentamento em MT disputa maior prêmio mundial de inovação em água

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Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

Um projeto de gestão hídrica e conservação ambiental realizado em Mato Grosso é finalista do Prêmio Global de Inovação de Água, na Arábia Saudita, considerado a maior premiação do setor no mundo. Denominada “Plantando Água: Segurança Hídrica Sustentável no Brasil”, a iniciativa disputa o prêmio que distribui cerca de US$ 800 mil entre as suas categorias. O trabalho é liderado pelo engenheiro agrônomo e perito federal territorial do Incra-MT, Samir Curi, e baseia-se no uso de tecnologias sociais de baixo custo para garantir o abastecimento e combater a escassez no meio rural.

A trajetória do projeto começou após o diagnóstico de sérios gargalos no abastecimento de água na agricultura familiar em Mato Grosso. Em assentamentos rurais de Cáceres, na fronteira com a Bolívia, comunidades enfrentavam escassez crônica há duas décadas, o que provocava o fechamento prolongado de escolas e o êxodo de famílias. A busca por soluções viáveis e sustentáveis levou ao desenvolvimento de sistemas focados na captação, armazenamento e infiltração da água da chuva.

As soluções tradicionais de infraestrutura, como grandes adutoras e sistemas de bombeamento contínuo, mostram-se economicamente inviáveis na zona rural devido ao elevado custo de energia e à extensão territorial dos assentamentos. Diante desse cenário, a captação direta de água pluvial e o uso de cisternas e barraginhas surgiram como alternativas eficientes para suprir tanto o consumo humano quanto às necessidades da produção agropecuária.

“Irrigar é fácil quando você tem água. O problema é a falta de água”, afirma o perito federal territorial do Incra-MT, Samir Curi ao Estúdio Rural. Ao constatar a realidade dos assentamentos em Cáceres, ele começou a buscar soluções no Brasil e no exterior para encontrar sistemas viáveis para a agricultura familiar.

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Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

Tecnologias sociais ampliam oferta de água

Entre as soluções aplicadas no estado está a cisterna de água para consumo humano, amplamente utilizada no Nordeste e adaptada para Mato Grosso. O modelo capta a água da chuva pelos telhados das residências ou escolas rurais e, mediante filtragem e manejo sanitário adequado, garante água potável sem gerar custos com energia elétrica ou bombeamento.

Outro pilar do projeto é o Sistema de Barraginhas, responsável por conter o escoamento superficial das enxurradas e favorecer a infiltração da água no solo. Além de evitar a erosão e a perda da camada fértil da terra, a retenção pluvial alimenta o lençol freático e as nascentes. Em propriedades de agricultura familiar, a implementação de seis a nove barraginhas pode armazenar e infiltrar milhões de litros de água ao longo do período chuvoso.

“O princípio desse projeto é o que as pessoas falam no popular: domar a chuva”, explica Curi. Segundo ele, reter a enxurrada onde ela cai permite que a água infiltre no solo e alimente os aquíferos e nascentes da região.

Os impactos das intervenções se refletem diretamente no aumento da produção agrícola e na fixação das famílias no campo. Em Cáceres, as ações iniciadas em 2011 beneficiaram cerca de 150 famílias e permitiram a expansão do rebanho bovino local de menos de 1.000 para quase 5.000 cabeças. Em Juína, a implementação do projeto ajudou a conter a crise hídrica e passou a auxiliar no abastecimento de cerca de 50 mil pessoas na área urbana.

O avanço da degradação hídrica preocupa os especialistas. “Mato Grosso perdeu 50% de superfície de água em 35 anos”, alerta o perito federal, ao defender que a recuperação ambiental precisa ocorrer em escala regional para evitar colapsos no abastecimento.

Difusão regional e reconhecimento global

Para ampliar o alcance das tecnologias, instituições parceiras vêm implantando vitrines tecnológicas em diferentes regiões do estado. Ações de capacitação e unidades demonstrativas foram instaladas em municípios como Chapada dos Guimarães, Barra do Garças e Juína, com planejamento para expansão até Rondonópolis e Alta Floresta.

A viabilidade dos projetos é favorecida pela estrutura existente nos municípios, que já contam com patrulhas mecanizadas e fontes de financiamento ambiental, como recursos do Programa REM e multas convertidas pelo Ministério Público. A articulação entre prefeituras, universidades e órgãos ambientais têm permitido baratear os custos de execução.

“A gente tem em Mato Grosso a faca e o queijo na mão”, pontua Curi. Para o especialista, a estrutura de máquinas doada aos municípios garante a execução dos trabalhos, dependendo essencialmente de mobilização e conscientização social.

A classificação como finalista na premiação da Arábia Saudita reforça a eficiência de soluções inspiradas em conhecimentos ancestrais e adaptadas à gestão moderna dos recursos hídricos. A iniciativa combina preservação ambiental, saneamento rural e inclusão social em uma mesma metodologia.

“É preciso sair da caixinha e entender que o mundo tem possibilidades melhores para a população”, destaca o engenheiro agrônomo, ao comemorar o reconhecimento internacional do projeto desenvolvido em Mato Grosso.

+Confira outras entrevistas do Programa Estúdio Rural em nossa playlist no YouTube


Fonte: Canal Rural Mato Grosso (https://matogrosso.canalrural.com.br/entretenimento/estudio-rural/projeto-que-mudou-realidade-de-assentamento-em-mt-disputa-maior-premio-mundial-de-inovacao-em-agua/)

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