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“Pior que negociar com agiota”: juros pressionam produtores de Mato Grosso

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

O acesso ao crédito e as condições para renegociar dívidas estão entre os desafios enfrentados por produtores rurais de Mato Grosso na safra 2026/27. Com juros elevados, custos de produção em alta e dificuldades para obter financiamentos, agricultores buscam alternativas para manter as lavouras e evitar que o endividamento comprometa a continuidade dos negócios.

Uma proposta de renegociação com juros de 3,63% ao mês levou o produtor rural Adalberto Grando a comparar as condições oferecidas por uma instituição financeira às de um agiota. A taxa equivale a quase 50% ao ano, considerando a capitalização dos juros. “A gente não está pedindo um perdão de dívidas, a gente está pedindo uma condição de pagar nossas dívidas em uma condição que nos mantenha produzindo”, afirma.

A pressão financeira também interfere nas decisões sobre o plantio, a compra de insumos e os investimentos nas propriedades. Sem conseguir recursos bancários em condições consideradas viáveis, produtores recorrem a fornecedores para financiar a produção e assumem compromissos de pagamento vinculados à colheita.

Em Gaúcha do Norte, município que tem a economia fortemente ligada à agricultura, esse cenário aparece tanto na dificuldade para renegociar débitos quanto na redução dos investimentos nas lavouras. Os relatos locais exemplificam um problema que afeta a atividade rural em Mato Grosso: a necessidade de manter a produção mesmo com margens apertadas e acesso restrito ao crédito.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Financiamento depende de alternativas fora dos bancos

A dificuldade de obter crédito bancário faz com que parte dos produtores dependa de tradings e revendas de insumos para custear a safra. Nesse modelo, empresas fornecem sementes, fertilizantes e defensivos, com pagamento previsto para depois da colheita, frequentemente em grãos.

Adalberto Grando está entre os agricultores que precisaram recorrer a essa alternativa. Na propriedade dele, onde a soja ocupa 2,1 mil hectares nesta temporada, os recursos para financiar a operação vêm principalmente dessas empresas.

“Não teve recurso de banco, basicamente trading e revenda que estão bancando hoje a nossa operação aqui”, relata ao Patrulheiro Agro.

O presidente do Sindicato Rural de Gaúcha do Norte, Valdomiro Schulz, também aponta a escassez de recursos e as exigências para a liberação de financiamentos como obstáculos ao planejamento dos produtores. Além da apresentação de avalistas, as instituições financeiras podem exigir garantias sobre a produção e os imóveis rurais.

“Além de avalista, eles também querem pegar o penhor do grão e também a hipoteca da terra para se garantir para receber essas contas”, afirma Schulz.

A dependência de crédito privado, nesse contexto, não elimina o risco financeiro. Os compromissos assumidos precisam ser pagos mesmo diante de eventuais perdas de produtividade, oscilações de preços ou problemas climáticos, fatores que tornam o resultado da safra decisivo para a capacidade de quitar as dívidas.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Endividamento muda o planejamento das lavouras

A necessidade de controlar as despesas já afeta o manejo da soja. O produtor Josenei Zemolin, que cultivou 1.080 hectares nesta safra, prevê diminuir entre 10% e 20% os investimentos em adubação em comparação com o ciclo anterior.

A quantidade de fertilizante aplicada por hectare também será menor. Zemolin utilizava 400 quilos de fósforo por hectare e prevê trabalhar com volumes entre 330 e 350 quilos nesta temporada.

A decisão, pontua à reportagem do Canal Rural Mato Grosso, busca preservar recursos em um momento de incerteza sobre a rentabilidade. O agricultor relata que o endividamento se arrasta há mais de um ano e que as taxas de juros dificultam a reorganização financeira das propriedades.

“Essa que vamos plantar agora é uma safra de custo muito puxado”, afirma. A estratégia é ajustar os gastos para manter a atividade sem comprometer ainda mais o caixa, embora a redução de insumos exija atenção às necessidades do solo e da cultura.

O quadro financeiro se soma ao aumento das despesas para produzir. Dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) apontam que o custo total da soja para a safra 2026/27 supera R$ 8,2 mil por hectare, alta de quase 7% em relação ao ciclo anterior.

As operações mecanizadas registraram aumento próximo de 24%, enquanto os defensivos agrícolas ficaram cerca de 10% mais caros. Mesmo com a redução de quase 22% no custo das sementes, o conjunto das despesas continuou pressionando o orçamento dos produtores.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Efeitos ultrapassam os limites das propriedades

A dificuldade financeira no campo também preocupa municípios cuja economia depende da atividade agropecuária. Em Gaúcha do Norte, o prefeito Ari do Prado relaciona o momento atual às perdas de produção, à queda dos preços agrícolas e ao aumento dos custos enfrentados pelos produtores.

O reflexo pode alcançar empresas e outros setores que dependem da circulação de recursos gerados pela agricultura. O prefeito também demonstra preocupação com o preço dos combustíveis, que, conforme ele, já ultrapassa R$ 8 por litro no município, com perspectiva de novas altas.

A dependência do crédito para sustentar investimentos amplia a preocupação. Quando produtores encontram dificuldades para financiar o plantio ou renegociar compromissos anteriores, a restrição financeira pode afetar não apenas as propriedades, mas também os negócios que fornecem produtos e serviços ao setor.

Para o presidente da Cooprosoja, Fernando Cadore, preservar a capacidade de produção dos agricultores é importante para a manutenção da força brasileira no mercado internacional. “Para o Brasil continuar com esse protagonismo na agricultura mundial, para ter uma exportação forte, nós precisamos de um produtor forte também dentro de casa”, frisa.

O empresário e produtor rural Dayan Della Justina Vieira defende maior credibilidade na condução da economia e mudanças que contribuam para melhorar o ambiente de negócios. Já Grando aponta a necessidade de avanços na infraestrutura e de mecanismos de proteção para reduzir a vulnerabilidade dos produtores diante das perdas na atividade.

O desafio, para os agricultores, é conciliar o pagamento das dívidas com a manutenção da produção. Sem condições de financiamento compatíveis com a capacidade de pagamento das propriedades, o acesso ao crédito continua sendo um dos fatores que podem limitar os investimentos e a continuidade dos negócios rurais em Mato Grosso.

+Confira todos os episódios da série Patrulheiro Agro


Fonte: Canal Rural Mato Grosso (https://matogrosso.canalrural.com.br/patrulheiro-agro/pior-que-negociar-com-agiota-juros-pressionam-produtores-de-mato-grosso/)

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