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Com pouca terra, China aposta em genética para produzir mais e desafia o agro brasileiro

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

A China é o maior comprador mundial de soja, mas também trabalha para ampliar a produção dentro do próprio território. No nordeste do país, áreas de pesquisa e produção mostram uma estratégia baseada em produtividade, genética e uso mais eficiente das terras disponíveis.

O desafio é produzir mais sem ampliar a fronteira agrícola. Na província de Heilongjiang, uma das principais regiões agrícolas chinesas e maior produtora de soja do país, essa realidade fica evidente.

A região tem como característica o inverno rigoroso, com temperaturas que podem chegar a 30 graus negativos. Durante a curta janela do verão, porém, os campos ganham vida e concentram cultivos como soja, milho e arroz.

Com pouca disponibilidade de terras agricultáveis, a China busca elevar o rendimento das áreas já utilizadas. Para Marcos Araújo, diretor da Agrinvest Commodities, a limitação territorial ajuda a explicar tanto a estratégia chinesa quanto a importância das importações.

“A área agricultável na China é de apenas 900 metros quadrados por habitante. Então, toda área agricultável da China tem um foco em produção de culturas que têm giros muito rápidos”, afirma.

A soja ocupa cerca de 10 milhões de hectares no país e apresenta produtividade média de aproximadamente 2 mil quilos por hectare, o que resulta em torno de 20 milhões de toneladas anuais. Ao mesmo tempo, o grão produzido na China apresenta teor de proteína elevado, em torno de 40%, enquanto novas variedades brasileiras ficam próximas de 33%.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Terra limitada aumenta pressão por produtividade

A área disponível é apenas parte da explicação. Na China, a escolha do que plantar também está relacionada aos preços, aos subsídios e ao zoneamento agrícola definido para diferentes regiões.

O analista da Agrinvest Commodities Eduardo Vanin explica que a soja está restrita a determinadas áreas, inclusive por características de solo. Segundo ele, o produtor acompanha os preços do milho e da soja na bolsa de Dalian e também considera o preço mínimo estabelecido pelo governo e os subsídios antes de definir o plantio.

“Cada ano o produtor chinês tem essa informação para tomar a sua decisão de, de repente, plantar um pouco mais de soja e um pouco mais de milho”, explica à reportagem do Canal Rural, que acompanhou a expedição da Agrinvest Commodities ao país asiático.

O zoneamento também determina a vocação de cada área. Em uma propriedade de 20 hectares visitada durante a viagem, por exemplo, a sequência de cultivo é concentrada no milho. Outras regiões são destinadas ao trigo, batata, soja e outras culturas.

Essa organização reforça a necessidade de aproveitar ao máximo o potencial produtivo de cada hectare. Ao mesmo tempo, mantém a importação como parte estratégica do abastecimento chinês.

Mesmo com os avanços internos, a China ainda depende do mercado externo para atender à demanda por soja. De acordo com Marcos Araújo, cerca de 80% da soja importada pelo país tem origem no Brasil.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Solo negro vira aliado da pesquisa chinesa

Na Academia de Ciências Agrícolas de Harbin, a estratégia de aumento da produtividade passa também pelo aproveitamento das características naturais do solo negro do nordeste chinês.

Rico em matéria orgânica e com capacidade de preservar nutrientes, fertilizantes e água, o solo oferece condições favoráveis para culturas como soja, milho e arroz. A pesquisa busca combinar esse potencial com novas práticas de manejo.

A pesquisadora chinesa Zhou Meng destaca a importância do solo negro para a agricultura da região. “O estado está estudando o solo negro desta região. Aqui existe uma grande disponibilidade de solo arável em comparação com outras áreas da China. Esse solo é rico e consegue preservar melhor os nutrientes, os fertilizantes e a água”, pontua à reportagem.

Ela também relaciona as condições climáticas ao desempenho das lavouras. “As manhãs são mais frias e, ao meio-dia, a temperatura sobe. Essa combinação favorece o desenvolvimento das plantas e aumenta a produtividade da soja e do milho”.

Na soja, a produtividade média chega a 220 quilos por mu, unidade de medida utilizada na China. No milho, chega a 3,3 mil quilos por hectare.

Para os próximos anos, a aposta está principalmente em duas frentes: melhoramento genético e rotação de culturas. A combinação deve permitir que as áreas já utilizadas entreguem mais produção. Conforme Zhou Meng, essas duas tecnologias serão fundamentais para elevar ainda mais a produtividade.

O produtor rural Eduardo Antônio Scopel, um dos produtores integrantes da expedição, chama atenção justamente para essa característica. “O que nós vimos na China é que ela está limitada à área, então ela não tem condição de expandir essa área”, observa.

Segundo ele, o que mais chamou atenção foi o potencial produtivo observado na região. “Os padrões de plantas muito bem estabelecidos, soja muito bem carregada, é impressionante isso aí”, relata ao Canal Rural Mato Grosso.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Genética pode reduzir dependência de importações

Para os produtores brasileiros que acompanharam a visita, o melhoramento genético é um dos pontos que mais chamam atenção. Em uma lavoura de soja, o número de vagens com quatro grãos por planta despertou a atenção do produtor rural Cesar Paludo.

“Me chamou a atenção, como sou plantador de soja, que essa variedade tem muitas vagens de quatro grãos na mesma planta”, comenta.

Paludo compara o material observado na China com a realidade encontrada em sua região no Brasil e avalia que a busca por produtividade é uma necessidade diante da impossibilidade de ampliar a área cultivada. “Eles precisam aumentar a produtividade por hectare porque terra para ampliar a produção não tem mais. O caminho deles vai ter que ser por área plantada”, afirma.

Ao mesmo tempo, ele considera que a China continuará dependente da soja produzida por outros países. “Eles vão precisar de muita soja ainda para os próximos anos”, acrescenta.

A estratégia chinesa, portanto, não elimina a importância do Brasil no fornecimento de soja, mas sinaliza que os ganhos de produtividade podem alterar, gradualmente, o tamanho dessa demanda. Para o produtor brasileiro, acompanhar esse movimento se torna necessário.

A busca por genética também se estende a outras culturas. O arroz produzido na região utiliza sistemas de irrigação por inundação, enquanto a China e o Japão são apontados como referências em melhoramento genético e bancos de germoplasma.

“China junto com o Japão são referências no melhoramento genético para o arroz, para o trigo, banco genético esse que serviu de referência para vários órgãos de pesquisa no mundo”, destaca Marcos Araújo.

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Província de Heilongjiang, China. Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Milho mostra impacto direto para o Brasil

O avanço chinês no melhoramento genético ganha ainda mais importância quando o assunto é milho. A cultura ocupa uma área muito maior que a soja no país e já apresenta produção próxima do consumo interno.

A China cultiva atualmente cerca de 44 milhões de hectares de milho, com produtividade média nacional de 6,5 mil quilos por hectare. A produção chega a aproximadamente 307 milhões de toneladas, diante de um consumo estimado em 325 milhões de toneladas.

É justamente nessa diferença que o ganho de produtividade pode provocar mudanças importantes no mercado internacional. De acordo com Marcos Araújo, um aumento de 2 mil quilos por hectare acrescentaria 88 milhões de toneladas à produção chinesa anual.

Esse volume seria suficiente para tornar o país autossuficiente e reduzir ainda mais a necessidade de compras externas. O movimento já começou a aparecer nas importações: depois de chegar a importar cerca de 30 milhões de toneladas de milho alguns anos atrás, a China reduziu esse volume para menos de 2 milhões de toneladas nas últimas temporadas.

Para o produtor brasileiro, o cenário exige atenção na definição dos mercados. Na avaliação de Araújo, apostar exclusivamente na China como destino do milho pode não ser uma estratégia adequada diante da evolução da produção doméstica chinesa. “Principalmente, o Brasil tem que estar focado no programa de biocombustível, no etanol a partir do milho”, avalia.

A transformação do milho em etanol abre uma alternativa para absorver parte da produção brasileira e reduz a dependência de um único mercado externo. Enquanto isso, a China segue investindo em produtividade e também no aumento da produção de proteína animal.

Esse movimento amplia o desafio para o agronegócio brasileiro. Além de continuar como grande comprador de commodities, a China pode fortalecer a própria produção e, em algumas cadeias, tornar-se menos dependente das importações.

*O repórter do Canal Rural Mato Grosso, Pedro Silvestre. viajou para a China à convite da Agrinvest Commodities.


Fonte: Canal Rural Mato Grosso (https://matogrosso.canalrural.com.br/agricultura/soja/com-pouca-terra-china-aposta-em-genetica-para-produzir-mais-e-desafia-o-agro-brasileiro/)

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