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Da soja brasileira ao prato chinês: por dentro da indústria que processa 7 milhões de toneladas ao ano

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China exportação soja foto pedro silvestre Canal Rural mato Grosso1
Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

A soja brasileira percorre milhares de quilômetros pelo oceano antes de chegar à China, onde ganha uma nova função dentro de uma das maiores cadeias de produção de proteína animal do mundo. Em uma das grandes indústrias processadoras do país asiático, o grão é transformado em óleo e farelo utilizados na alimentação humana e, principalmente, na fabricação de rações.

Fundada em 1999, a Hopeful Grain & Oil Group possui três plantas de processamento e capacidade para esmagar até 10 milhões de toneladas de soja por ano. A estrutura também inclui 11 navios Panamax próprios e operações de trading nos Estados Unidos, Brasil, Argentina e Hong Kong.

Na unidade visitada por produtores brasileiros, que participaram da expedição da Agrinvest Commodities à China, cerca de 80% da soja processada tem origem brasileira.

“Ela não atua na compra pelo interior do Brasil, na originação dos grãos”, explica Marcos Araújo, diretor da Agrinvest Commodities. Segundo ele, a empresa compra principalmente soja brasileira FOB Brasil de tradings que adquirem o grão dos produtores e fazem o transporte até a China.

A escala da operação dá dimensão ao papel que a soja brasileira desempenha na cadeia chinesa. São cerca de 7 milhões de toneladas processadas por ano, que deixam de ser apenas uma commodity comercializada entre países e passam a integrar diferentes produtos consumidos pela população.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Soja brasileira abastece produção de carnes na China

O principal destino do farelo produzido na indústria é a alimentação animal. De acordo com Araújo, a soja processada gera aproximadamente 20% de óleo e 80% de farelo, com teor de proteína em torno de 44,5% a 45%.

“Esse farelo de soja vai ser utilizado principalmente na ração dos suínos e de frango”, afirma. O produto também é destinado à alimentação de bovinos para a produção de carne e leite, fazendo com que a soja brasileira integre diferentes etapas da cadeia de proteína animal chinesa.

A dimensão desse mercado está diretamente relacionada ao perfil de consumo da China. O professor Xu Hui destaca que a carne suína representa cerca de 57% do consumo nacional de carnes.

O frango responde por uma fatia entre 20% e 25%, enquanto a carne bovina representa 8% e a de carneiro, 5%. A forte demanda por proteína ajuda a explicar a necessidade de grandes volumes de farelo para a fabricação de rações.

Para manter o ritmo de processamento, a indústria visitada precisa receber aproximadamente 130 mil toneladas de soja por semana. A operação também conta com o abastecimento ferroviário: são cerca de 3 mil toneladas que chegam diariamente por trem à unidade.

“Essa indústria especificamente tem que estar comprando em torno de 130 mil toneladas por semana para girar toda essa indústria”, detalha Araújo.

A estrutura de armazenagem acompanha a dimensão da operação. A empresa possui capacidade para 800 mil toneladas, distribuídas em grandes silos de concreto, além de uma ligação ferroviária direta com o porto, localizado a aproximadamente 150 a 160 quilômetros da indústria.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Logística chinesa expõe desafio brasileiro

A ferrovia permite que a soja desembarcada no porto seja levada diretamente até a unidade processadora. A estrutura também evidencia o peso que o transporte tem na formação do custo da soja brasileira e na competitividade do produtor no mercado internacional.

“Nós estamos praticamente há 150, 160 quilômetros do porto, principal portão de entrada para essa soja brasileira”, explica Araújo em entrevista ao Canal Rural Mato Grosso. Da área portuária até a indústria, o produto é transportado pela ferrovia.

O executivo destaca que o modal contribui para reduzir o custo logístico e o impacto ambiental. Para ele, o Brasil ainda poderia avançar no aproveitamento de ferrovias e hidrovias para tornar o transporte da produção mais competitivo.

Araújo compara os custos para percorrer longas distâncias no Brasil e nos Estados Unidos. De acordo com ele, o transporte da soja entre Sorriso e o porto pode chegar a US$ 100 por tonelada, enquanto uma distância semelhante nos Estados Unidos custaria aproximadamente US$ 40 por tonelada.

“Essa economia, boa parte desse dinheiro entraria no bolso do produtor rural brasileiro”, afirma. Na avaliação dele, a redução do chamado custo Brasil poderia contribuir para fortalecer a atividade no campo.

Para os produtores que acompanharam a operação de perto, conhecer o destino da produção ajuda a compreender como o grão se encaixa na cadeia global. Gabriel Kirnev destaca a importância de observar diretamente o processamento e o caminho percorrido pela soja depois que ela deixa o campo.

“Independente de qualquer cenário é sempre muito bom a gente conhecer os nossos clientes”, pontua o produtor rural.

Ele também ressalta a importância de visualizar o processamento e acompanhar a chegada do produto ao destino final. “O que realmente importa para nós” é observar a soja chegando ao consumidor.

Moacir Smaniotto Junior também chama atenção para a estrutura logística encontrada na China e para a importância da soja brasileira para o abastecimento do país asiático. Para ele, o modelo mostra a necessidade de investimentos semelhantes no Brasil.

“Uma infraestrutura fantástica. É um investimento em logística fantástico, quem sabe o Brasil chega lá também”, diz o produtor rural à reportagem.

A relação entre os dois países, portanto, vai além da compra e venda de grãos. A soja brasileira está diretamente ligada à produção de carnes e outros alimentos consumidos pelos chineses, enquanto a demanda asiática mantém o Brasil entre os principais fornecedores mundiais da oleaginosa.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Qualidade do grão entra no radar da indústria

Apesar da forte participação brasileira no abastecimento, a operação também apresenta pontos de atenção para os produtores. Um deles está relacionado à qualidade da soja que chega à unidade depois de percorrer toda a cadeia logística entre o campo e a indústria chinesa.

O gerente executivo da Hopeful Grain & Oil Group, Li Changxin, aponta a presença de impurezas como uma das principais dificuldades encontradas no recebimento da soja.

“A primeira dificuldade é a presença de impurezas”, afirma o executivo. Ele também cita questões técnicas relacionadas ao transporte como outro ponto de atenção para a operação.

De acordo com Li Changxin, a soja importada dos Estados Unidos apresenta desempenho melhor nesses aspectos quando comparada ao produto recebido de outros fornecedores. A avaliação coloca a qualidade do grão como mais um fator relevante na disputa pelo mercado chinês.

O alerta ganha importância diante da escala da operação. Com milhões de toneladas processadas anualmente, pequenas diferenças na qualidade da matéria-prima podem repercutir sobre o desempenho industrial e sobre os custos de processamento.

Para os produtores brasileiros, acompanhar de perto o destino da produção também permite enxergar exigências que vão além da produtividade. O grão precisa chegar ao comprador internacional dentro dos padrões esperados e com qualidade compatível com o uso industrial.

O professor Xu Hui reforça a importância do Brasil nesse abastecimento e faz um apelo aos produtores brasileiros. “Por favor, continuem a aumentar a produtividade, plantar mais soja, mais milho, produtos de alta qualidade que a China precisa de vocês”, afirma.

A visita à indústria mostra, na prática, como uma soja produzida em Mato Grosso e em outras regiões brasileiras pode atravessar continentes e terminar integrada à produção de carne, leite e outros alimentos na China.

Para Marcos Araújo, essa conexão resume a dimensão da atividade. “É um espetáculo para nós observarmos como podemos agregar valor”. O executivo destaca ainda a importância de levar o produtor rural até a China para conhecer o destino da produção. “Isso tudo é agronegócio global”.

*O repórter do Canal Rural Mato Grosso, Pedro Silvestre. viajou para a China à convite da Agrinvest Commodities.


Fonte: Canal Rural Mato Grosso (https://matogrosso.canalrural.com.br/agricultura/soja/da-soja-brasileira-ao-prato-chines-por-dentro-da-industria-que-processa-7-milhoes-de-toneladas-ao-ano/)

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